COMPORTAMENTO

Simbolicamente, o século XX se encerra com a pandemia de Covid-19 — é o que sugere a historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz. Esse foi um ano de desafios e contradições, em que a vida desacelerou forçada, mas muitas tendências foram aceleradas, outras redefinidas e várias outras surgiram, ajudando a entender o que se pode esperar da nova era em que acabamos de entrar. Do ponto de vista do comportamento humano, a consultoria WGSN tem observado sinais de uma mudança de valores a partir de cinco forças propulsoras, que podem ser acompanhadas pelas empresas e que inspiram a reação da iniciativa privada à fase crítica que estamos vivendo.  

1. ANSIEDADE FINANCEIRA

Ansiedade Financeira

Em 2020, os sinais da incerteza financeira estiveram na porta de nossas casas, com lojas fechadas e ruas de comércio desertas. O desemprego está em alta. Mesmo com alguns países implementando pacotes de estímulo, reduzindo os juros e oferecendo inúmeros incentivos para fomentar o consumo, a ansiedade financeira continua sendo um sentimento chave. Está claro que uma recessão econômica está sendo estabelecida ou acirrada, o que irá afetar os mercados e os consumidores em diferentes níveis, mesmo em países em que as previsões são mais otimistas.

 

Uma pesquisa realizada em novembro de 2020, pela Opinion Box, apontou que, no Brasil, 43% das pessoas viram sua renda diminuir e 45% sentiram que os gastos aumentaram neste período. E 62% passaram a valorizar mais a importância de ter dinheiro guardado, enquanto que 56% aprenderam a cuidar melhor do seu dinheiro. Pesquisa do segundo semestre de 2020 da Time/NextAdvisor mostra que 51% da população dos EUA sofre de ansiedade financeira.

Mudança de sentimento que ameniza essa ansiedade: do Propósito à Longevidade.

 

Nos últimos anos, podemos observar como o senso de propósito passou a fazer parte das tomadas de decisão de consumo, estimulado principalmente por fenômenos sociais e ameaças como a crise climática que colocaram as questões socioambientais no centro de discussões globais. Com a chegada da pandemia de Covid-19, as prioridades de consumo apontam para uma nova direção (não excludente da anterior, mas mais urgente). Pesquisa realizada em julho de 2020 pela Opinionbox mostrou que, durante a pandemia, 41% dos entrevistados sentiram que os custos com moradia aumentaram durante a pandemia. Consumidores reforçaram seus interesses por versões mais acessíveis de itens essenciais do dia-a-dia e deixaram o supérfluo para ocasiões muito especiais. Para produtos e serviços que não entregam benefícios de saúde ou segurança, será importante diversificar por meio de linhas ou versões mais acessíveis, capazes de atrair um público que esteja de olho no orçamento.

2. PREOCUPAÇÕES COM A SAÚDE 

Preocupações com a Saúde

O confinamento forçado e a ameaça de uma recessão sem precedentes estão impactando a saúde mental de consumidores do mundo todo. De acordo com um estudo divulgado em março de 2020 pela ABC News e pelo The Washington Post, 70% da população dos EUA está se sentindo estressada como consequência da crise do coronavírus. Em uma pesquisa da Associação Americana de Psiquiatria, 36% dos entrevistados reconhecem que a pandemia afetou a sua saúde mental. Esses resultados apontam para uma tendência mundial. Na América Latina, a pandemia representa um choque sanitário, social e econômico do ponto de vista humano. Embora a atenção para o bem-estar já tenha sido detectada em estudos de tendências como uma das prioridades do consumidor há algum tempo, a intersecção atual de preocupações com a saúde mental e física é uma novidade relevante.

Mudança de sentimento que ameniza essa preocupação: Autocuidado.

O autocuidado está em alta e já é uma indústria que movimenta US$ 11 bilhões, de acordo com a Harvard Business Review. O mercado de produtos e serviços voltados às emoções também está em ascensão. A próxima tendência, nesta direção, é a da autocompaixão: olhar para dentro de si próprio para encontrar acolhimento como um mecanismo de sobrevivência (WGSN).

3. SÍNDROME DA SOLIDÃO

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Mesmo antes da pandemia, a solidão já era considerada um sentimento muito comum da nossa época. Ela vinha sendo estimulada por fatores como o aumento das interações digitais em detrimento das presenciais, o burnout e a dessincronização das rotinas das pessoas, que passaram a ter dificuldade em abrir espaço (tempo livre) para oportunidades de conexão. Em meio à quarentena, no entanto, as mesmas ferramentas que causavam desequilíbrio emocional por causa do distanciamento passaram a representar verdadeiras tábuas de salvação em um mar de isolamento. 

 

Apesar de fisicamente afastados dos entes queridos, as pessoas nunca estiveram tão conectadas digitalmente. O distanciamento social não se traduziu radicalmente em distanciamento emocional, graças à ascensão de aplicativos de reuniões remotas. Um estudo da Business Insider revelou que, em março de 2020, ocorreram 62 milhões de downloads de aplicativos para videoconferência em apenas uma semana, um número 45% maior que o resultado da semana anterior e 90% em relação à média semanal em 2019. Plataformas para celebrações e happy hours virtuais também acompanharam essa onda. Na Europa, entre 15 de fevereiro e 25 de março de 2020, os downloads diários do app de videochamada e de jogos sociais on-line Houseparty saltaram de 24.000 para 651.000, segundo a própria Houseparty. A consultoria de tendências WGSN observou que as conexões interpessoais também passaram por um ressurgimento durante a pandemia, já que diversas iniciativas de cidadãos comuns geraram uma onda de coletivismo. O interesse renovado pela preservação do senso coletivo reforçou o foco no comércio local, já que não foram incomuns as manifestações de pessoas que se sentiram mais ligadas às comunidades onde vivem.

Mudança de sentimento que ameniza a solidão: entretenimento na quarentena

A convergência entre os mundos físico e digital – também chamado de 'figital' – ganhou espaço durante a pandemia. Pós-pandemia, o tipo de entretenimento adotado na quarentena promete fazer parte das horas de lazer de diversos grupos etários, como prevê estudo da WGSN. No Brasil, estudo elaborado em maio de 2020 pela Conviva demonstra que a audiência dos serviços de streaming cresceu 20%. Os pesquisadores concluíram que, em comparação ao primeiro trimestre de 2019, os três primeiros meses de 2020 apresentaram aumento de 79% em horas vistas de vídeos sob demanda. Os dados obtidos pela Opinionbox em julho de 2020 reforçam, pois 43% dos entrevistados pagavam por algum tipo deste serviço antes da pandemia, 21% aumentaram seus gastos e 45% pretendem continuar pagando depois que a pandemia terminar. A pesquisa ainda mostra mudança de comportamento significativa, já que 68% das pessoas responderam que  estão recorrendo mais a opções de entretenimento on-line do que off-line, sendo que 43% passam mais de cinco horas consumindo TV por assinatura e serviços de streaming de vídeo, filmes e séries, 33% mais de cinco horas consumindo streaming de música e 28% jogos on-line ou videogame.

 

Estima-se que os 2,7 bilhões de jogadores do mundo todo deverão gastar US$ 159,3 bilhões em 2020, segundo estudo da NewZoo. Já o estudo da Opinionbox mostrou que, entre os que já consumiam jogos, 41% estão gastando mais com jogos on-line e 34% com jogos e acessórios de videogame.

4. BUSCA PELA VERDADE

Antes da pandemia, a sociedade vivia uma crise epistêmica, na qual a desinformação se transformou em uma arma. Num relatório de 2018 da Reuters Institute Digital News Report, que analisou a confiança e a desinformação no consumo de notícias globais, o Brasil já aparecia em terceiro lugar no ranking de auto exposição a notícias falsas. A crise do coronavírus, no entanto, reforçou a importância do acesso à verdade. Uma pesquisa da GlobalWebIndex apontou que 68% dos consumidores de mídia de todas as gerações, no Reino Unido e nos EUA, buscaram atualizações sobre o coronavírus em março de 2020. Canais e programas de notícias foram os que mais viram sua audiência aumentar, seguidos pela programação infantil. À medida que o mundo buscava respostas, no entanto, a desinformação também se acelerou, levando algumas redes sociais a implementar regulamentações estritas para combater a ‘infodemia’ (a sensação de excesso de informação) de fake news.

Mudança de sentimento que ameniza essa necessidade: transparência

 

O déficit de confiança em fontes de informações, governos e sistemas de saúde está abrindo uma oportunidade para a iniciativa privada. Da transparência dos ingredientes ao combate à desinformação, empresas e marcas estão tentando construir e manter uma relação de confiança com seu público, apostando em esforços de fidelização.

5. MEDOS E INSEGURANÇAS

Em meio à volatilidade política e social e à própria pandemia, a segurança é o principal unificador demográfico e socioeconômico, segundo análise da WGSN. Desde março, a economia da segurança está em alta (as vendas de equipamentos de proteção individual, higienizadores de mão e produtos para limpar a casa dispararam), já que, além de proteger a si mesmas e aos entes queridos, as pessoas querem ter sensação de controle em um período de turbulência. Com o relaxamento das medidas de quarentena em diversas regiões, uma coisa ficou clara: a economia não irá se recuperar até que as pessoas se sintam seguras. 

Enquanto o mundo espera por uma vacina, as inovações para garantir o distanciamento social e a higiene são sinônimos de segurança. Varejistas, escritórios e meios de transporte público estão limitando a capacidade, reforçando os protocolos sanitários, usando sinalização educativa e escalonando o horário de funcionamento.

Mudança de sentimento que ameniza a insegurança: criação de santuário

 

A segurança física não está ligada apenas à pandemia. A volatilidade política e social em regiões como Brasil, Hong Kong, Bélgica e EUA está adicionando camadas extras de medo. Nesses lugares, começa a ganhar corpo um trauma coletivo entre a população, o que torna o santuário da casa mais importante do que nunca. As famílias estão cada vez mais se movimentando, e, ao que tudo indica, a chamada “economia do lar”, que inclui toda uma gama de serviços e produtos que protegem e mantêm a segurança, continuará em alta.

Contexto de comportamento: 
o coronavírus convida a reimaginar o futuro

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À proporção que as mudanças causadas pela pandemia de Covid-19 pausam ou, pelo menos, reduzem o ritmo da vida a que estávamos acostumados, as pessoas estão ponderando sobre o que elas desejam que volte ao normal e o que preferem reformular, ou até mesmo abandonar, visando criar um futuro melhor do que vinham projetando antes de 2020.

Em um artigo para o Financial Times, de abril de 2020, o romancista Arundhati Roy escreveu que as pandemias "forçaram os humanos a romper com o passado e imaginar seu mundo novo. Esta não é diferente. É um portal entre um mundo e o próximo.”

Investir no futuro

Otimismo trágico e crescimento pós-traumático

A humanidade está envolvida em um luto coletivo, lidando com perdas de vidas e de segurança, e isso terá de ser reconhecido e depurado para que se possa seguir em frente. As emoções de luto decorrentes da sobrevivência à pandemia estão assumindo muitas formas, desde as preocupações do dia-a-dia, sobre como se manter saudável e proteger membros vulneráveis ​​da família, até o envolvimento com a comunidade. É necessário assumir um aspecto existencial ligado à perda dos sensos de certeza, segurança e autonomia. Viktor Frankl, um sobrevivente do Holocausto e psiquiatra de Viena, descreveu “otimismo trágico" como sendo a capacidade de encontrar esperança e sentido na vida, apesar de dor, perda e sofrimento inescapáveis.

Segundo estudo da consultoria de tendências WGSN, psicólogos citam entre as consequências pós-traumáticas, a maior valorização da vida, o fortalecimento de relacionamentos íntimos, o aumento da compaixão e do altruísmo, a definição ou o reconhecimento de um propósito, uma maior consciência de si, do outro e do todo, um maior desenvolvimento espiritual, e o crescimento criativo.

O sonho também é coletivo

 

A pausa na vida normal está criando novas oportunidades para sonhos coletivos, à medida que as estruturas sociais e de negócios tradicionais se rompem, pavimentando o caminho para novas possibilidades. No Reino Unido, apenas 9% dos entrevistados da pesquisa YouGov, que entrevistou 4.343 pessoas, querem que a vida volte ao dito normal depois que a pandemia passar. A mesma pesquisa descobriu que 54% esperam fazer algumas mudanças em suas próprias vidas e desejam o mesmo para o país como um todo, para aprender com a crise. O estudo também revela que 40% estão sentindo um senso mais forte de comunidade local e 39% estão mais em contato com amigos e família. Cerca de 51% dos entrevistados notaram um ar mais limpo e 27% notaram mais vida selvagem nas cidades desde o início do surto. De acordo com o Ipea, o Brasil tem 780 mil organizações da sociedade civil, que estão ajudando os mais prejudicados pela crise. E a mobilização durante a pandemia é a maior já vista no país. Em três meses, a arrecadação passou dos R$ 6 bilhões, segundo o mesmo instituto.

A velocidade com que os bloqueios ocorreram em todo o mundo ao mesmo tempo em que dificultou soluções para reformular algumas questões anteriores, forçou alternativas para resolver outras questões, tais como a poluição ambiental, os sistemas de trabalho de escritório além de ineficiências, como desperdício de alimentos. Os bloqueios e a redução do ritmo frenético das cidades estão agora expondo uma nova realidade, em que cada pessoa tem o poder de mudar para melhor esses problemas interconectados. Notícias como a redução de 25% na poluição do ar na China e do monóxido de carbono pela metade em Nova York em março estão criando novas possibilidades de narrativas na consciência coletiva.

Um convite para investir no futuro

 

Como a vida das pessoas "encolheu" para caber em suas casas, as pessoas estão investindo em seus futuros de forma que possam se sentir no controle e criando um senso de autonomia, pelo menos sobre os espaços que elas sentem que podem dominar: os domésticos e os que estão ao alcance do convívio social.

Embora uma mudança sistêmica seja necessária para as sociedades resolverem os problemas globais, como a crise climática, as pessoas estão cada vez mais procurando maneiras de ajudar as comunidades locais. O aplicativo de rede social local NextDoor, “a rede social privada para o seu bairro”, teve um aumento de 80% no tráfego entre fevereiro e março, com um aumento de 382% no número de usuários ajudando uns aos outros, e viu dobrar o número de postagens em que as pessoas agradecem umas às outras.

Planejar o futuro passou a ser atividade cotidiana, com muitas pessoas usando o tempo em casa para aprender novas habilidades ou para se requalificar inteiramente com e-learning. O Coursera relatou que 10 milhões de pessoas se inscreveram para aulas on-line entre meados de março e meados de maio, um aumento anual de 600%, enquanto as matrículas na Udemy mais que quadruplicaram entre fevereiro e março (WGSN).

Tendências

1. Reagindo ao medo com adaptação

Antes da Covid-19, uma conferida rápida nas notícias mostrava cotidianamente a presença de temas como volatilidade política, crise climática e incertezas econômicas, o que já deixava claro que a sensação de medo era objeto relevante de pesquisas de comportamento. Vimos termos como burnout e "Transtorno do Estresse Pós-Traumático" sendo usados amplamente e vimos surgir neologismos, como "ecoansiedade" – uma preocupação crônica com as consequências geradas pelo aquecimento global, como em pesquisa conduzida pela WGSN em 2019, na qual 90% dos entrevistados do mundo todo disseram se sentir inseguros sobre o futuro ao pensar na crise climática. 

 

Com a pandemia, é possível justificar porque o sentimento de medo permanece na pauta. A novidade é que, diante de tamanho susto generalizado, os seres humanos precisaram agir rápido, também em escala individual, familiar e doméstica. Como era de se esperar do homo sapiens, o que se vê despontar em 2020 é a habilidade de se adaptar, criando novas saídas para novos problemas. 

Adaptação

A casa como hub de experiências


A pandemia reforçou a importância da casa como experiência compartilhada (com todos confinados) e individual (o que pode ser ou não uma experiência solitária). As pessoas perceberam que muitas das atividades, antes feitas fora de casa, agora podem ser feitas dentro dela, como cozinhar, se exercitar, encontrar os amigos ou dançar com eles pelo Zoom. O lar se transformou em um lugar de acolhimento e entretenimento, um verdadeiro santuário de segurança. Após o choque inicial da quarentena, muitas pessoas criaram um casulo para viver do modo mais confortável possível. 

De acordo com a plataforma de e-commerce Oberlo, os segmentos de melhor desempenho no varejo em abril desse ano (em comparação a abril do ano passado) estavam relacionados ao lar – segurança e proteção, eletrodomésticos, reformas, esportes, entretenimento, iluminação e ferramentas. Pós-quarentena, a tendência é de que os consumidores continuem investindo no local onde moram. De acordo com a Statista, os segmentos de móveis e utensílios para a casa devem crescer a uma taxa anual CAGR de 7,9% entre 2020 e 2024, enquanto a consultoria McKinsey reportou em julho de 2020 que, com a implementação do plano de reabertura da economia na Índia, a previsão de consumo para os setores de supermercados, entretenimento residencial e gastos gerais com a casa permanecia positiva.

Casa hub

Criando camadas de proteção


Na era do distanciamento social, as roupas se transformaram em armaduras, garantindo conforto e proteção para quem quer se aventurar fora de casa. O surgimento de peças que oferecem proteção e performance, em diversos segmentos de vestuário, mostra que há espaço para a inovação. A tendência é que propriedades antimicrobianas e antivirais cheguem ao alcance do consumo convencional (mainstream). Da mesma forma que o uso de máscaras em público faz parte do novo cotidiano, filtros antipoluição também terão o seu espaço no mercado. E com os moradores de diversas metrópoles (especialmente nos países que têm essa prioridade na mobilidade urbana) preferindo caminhar e pedalar em vez de usar o transporte público, roupas que protegem do clima e que filtram micropartículas deverão atraí-los. Outro mercado que passa a ser influenciado por estes novos hábitos e consumos é o de cosméticos. Segundo o Google, as pesquisas por cremes que protegem as mãos aumentaram 250% de março a maio deste ano (Dados do Google Trends).

A proteção também será um tema-chave para as embalagens e as marcas terão de pensar nisso para que o consumidor possa comprar com confiança. Essa deverá ser uma tendência importante para os segmentos de beleza, alimentação e bebida, que precisarão dar todas as garantias de que os produtos foram feitos com segurança e estiveram bem protegidos em toda a cadeia logística. Ainda com bastante espaço para inovação, a indústria de embalagens inteligentes, que já ganhava atenção do consumidor mais consciente em relação ao meio ambiente ou adepto a estilos de vida similares ao veganismo, ganham novas justificativas para receber reforço de investimento por parte da indústria e serem mais demandadas por novos perfis de consumidores.

Reconhecendo o poder dos novos habitantes: das plantas aos pets

Seja como um antídoto ao excesso de telas eletrônicas ou como resultado da desaceleração da vida, as pessoas se mostram interessadas em se reconectar à natureza – e as plantas têm um papel primordial nisso, agora e no futuro (WGSN). Capazes de gerar uma sensação de calma e de fazer companhia, também há a possibilidade de cultivar alguns alimentos em casa, reduzindo a conta do supermercado e a preocupação com a comida. A venda de estufas para cultivo em casa, segundo a plataforma de e-commerce Amara, cresceu 79% na comparação anual entre janeiro e maio de 2019 e 2020. Dados da Statista apontam que a tendência deve continuar, com as categorias de "faça você mesmo", jardinagem e animais de estimação crescendo a uma taxa CAGR de 6,6%, em nível global, entre 2020 e 2024.

A empresa sul-coreana Wells comercializa o Wells Farm, uma pequena estufa que permite cultivar vegetais por meio da hidroponia – sem pesticidas – dentro de casa. Os clientes também podem aderir a um programa gratuito de locação por um ano, uma iniciativa alinhada à economia do compartilhamento, e recebem sementes de graça.

 

A necessidade de praticar o isolamento em consequência da pandemia, para alguns grupos de pessoas, foi um empurrãozinho conveniente para arriscar na experiência de ter um novo animal em casa. Com isso, não foi incomum a entrada de consumidores de primeira viagem que se aventuraram neste mercado infindável de produtos e serviços, que, nas últimas décadas, já vem mantendo crescimento global sólido. Pesquisa realizada pela Opinionbox em julho de 2020, mostrou que 24% dos entrevistados adquiriram um novo animal desde o fim de fevereiro, 81% disseram que ter um animal de estimação ajudou a tornar o isolamento mais leve e divertido e 68% estão tendo mais tempo para o cuidado deles. Essa indústria, então, se prepara para acompanhar o crescimento e dar conta dos novos “filhotes da quarentena”. No início da pandemia, a preocupação em estocar alimentos para os animais domésticos, por exemplo, levou a grande movimentação nos atacados e nas redes especializadas, mostrando, assim, a força deste mercado para o qual, de acordo com o levantamento da Euromonitor International, o Brasil se tornou, em 2020, o segundo maior público consumidor com 6,4% de participação global, ficando, pela primeira vez, acima do Reino Unido (6,1%) e perdendo apenas para os Estados Unidos, que têm 50% do mercado. Por outro lado, ONGs e outras instituições da sociedade civil, devem ver com preocupação o aumento de animais domésticos na pandemia, uma vez que não será surpresa que com o retorno de muitos hábitos e rotinas aos parâmetros de antes da pandemia haja, então, um aumento da taxa de abandono e agravamento dos problemas relacionados a isso nas cidades. 

Plantas e Pets

2. O futuro é inclusivo e híbrido

A expressão 'Build Back Better' foi oficialmente usada pela ONU no "Marco para a Redução de Riscos de Desastres", documento divulgado em 2015. Nele, o órgão mundial explica como usar as medidas de recuperação de desastres ambientais para criar sociedades e nações mais resilientes por meio da implementação de políticas específicas. Num cenário pós-pandemia, isso passa por uma ressignificação importante não apenas pela questão ambiental, mas também pela emergência de questões sociais severas ligadas à maior percepção de desigualdades econômicas, às deficiências na garantia igualitária dos direitos humanos e a oferta de condições humanizadas de trabalho.

 

O digital surge como um fator que torna todas essas questões mais complexas. Ao mesmo tempo em que ele amplifica as desigualdades de acesso a diversos elementos de subsistência e bem-estar social entre indivíduos de diferentes classes sociais, ele também pode ser visto como alternativa para minimizá-las. O auxílio emergencial de R$ 600 disponibilizado pelo governo brasileiro em decorrência da pandemia, por exemplo, revelou 46 milhões de brasileiros invisíveis, ou seja, brasileiros que não se enquadravam às regras de acesso, pois não estavam nas listas assistenciais do governo, muitos sem CPF, sem conta em banco e sem acesso à internet para se regularizar. Eram justamente os desempregados, autônomos e trabalhadores informais que ficaram sem renda e dependiam do auxílio por uma questão de sobrevivência. Enquanto isso, o Home Office, para muitos especialistas, se tornou um novo indicador da desigualdade social no Brasil, já que, segundo o IBGE, a adoção em massa deste novo comportamento dos trabalhadores formais no Brasil demonstrou a disparidade traduzida pela concentração de mão de obra qualificada em regiões mais prósperas. Em julho de 2020, por exemplo, dos 8,4 milhões de trabalhadores remotos no Brasil, quase metade, 4,9 milhões, estava no Sudeste, região responsável pela maior parte da geração do PIB e apenas 252 mil estavam no Norte, região mais pobre do país.

 

Da mesma forma, a pandemia torna preocupante a dimensão dos direitos humanos em todo mundo. No Brasil, a emergência do combate ao vírus evidencia a situação de grupos populacionais que se encontram mais vulnerabilizados pela desigualdade social, esses indo dos povos indígenas a mulheres, crianças e adolescentes que sofrem violência doméstica.

 

Enquanto são feitos esforços para diminuir os impactos perversos da pandemia e do isolamento social, as empresas têm a oportunidade de investir em projetos que possam gerar uma economia mais verde, inclusiva e, a partir de agora, necessariamente híbrida (on e off-line) e capaz de apoiar os desafios que as sociedades terão de superar no futuro. Em prol deste futuro inclusivo e híbrido, as empresas vão sair do seu lugar comum, vão adotar problemas que não são necessariamente seus, inaugurando uma nova fase da responsabilidade social que incorpora diversas características do que se tem chamado de capitalismo consciente e que são necessárias para se adaptar ao mundo BANI (brittle/frágil, ansioso, não-linear e incompreensível) que Jamais Cascio do Institute for the Future projeta que já está substituindo o mundo VUCA (volátil, uncertain/incerto, complexo e ambíguo) empregado, pela primeira vez, pelo U.S Army War College na década de 1990. 

O antirracismo na pauta principal

 

O movimento Black Lives Matter (BLM) e os protestos contra a violência policial têm estimulado as sociedades em direção a um futuro antirracista. Após a divulgação das imagens que mostram o assassinato do cidadão norte-americano George Floyd por um policial branco, ocorreram protestos em diversas partes do mundo, ampliando o apoio ao movimento BLM Além de garantir a segurança da população negra por meio da reforma policial, o movimento está abrindo espaço em agendas globais para o debate sobre o significado de uma sociedade antirracista e do que as pessoas brancas em posições de liderança precisam fazer para garantir um futuro justo de verdade para todos. À medida que o apoio ao movimento aumenta, há um movimento crescente em diversas sociedades ao redor do mundo para trabalhar e evitar os seus próprios comportamentos racistas. Livros como 'Why I'm No Longer Talking to White People About Race’ e 'Me and White Supremacy' dispararam nas listas de bestsellers. No Brasil não foi diferente; na primeira semana de julho de 2020, a obra da autora Djamila Ribeiro “Pequeno Manual Antirracista” vendeu mais de três mil exemplares, representando um aumento de 184% se comparado com a semana anterior e, neste mesmo mês, passou a figurar como o livro mais vendido no Brasil na categoria “Não-Ficção” da lista da Publishnews. Além deste livro, títulos de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, outras autoras negras brasileiras, também tiveram crescimento nas vendas.

De acordo com a consultoria de tendências WGSN, as atitudes mais recomendadas por especialistas e que começam a ser observadas no mundo corporativo para avançar nesse tema são: ir além da retórica atual das redes sociais e ajudar a criar um mercado de trabalho justo do ponto de vista racial; investigar a falta de representação e as diferenças salariais em todos os níveis da empresa; trabalhar com influenciadores e profissionais criativos negros em hierarquias de tomada de decisão; abordar as questões que tenham viés inconsciente e livrar-se dos estereótipos; olhar para fora da empresa e avaliar como se pode ajudar as comunidades, investindo em educação e em iniciativas de desenvolvimento por meio de serviços de mentoria e apoio profissionalizante.

Recuperação verde a caminho

 

O modo como as economias serão reconstruídas é pauta no mundo todo, já que essa é uma grande oportunidade para se criar um futuro mais verde. No primeiro semestre deste ano, a União Europeia anunciou o seu plano de recuperação verde, um pacote de 750 milhões de euros que coloca a redução do impacto climático no centro das políticas de recuperação pós-pandemia. Entre outras prioridades, o projeto quer criar pelo menos um milhão de empregos verdes. A Nova Zelândia também apresentou o seu plano de recuperação de US$ 30 bi, que prevê a criação de milhares de empregos em projetos ambientais, enquanto na Coreia do Sul também deverá ocorrer a implementação de um 'Green New Deal' após a vitória do Partido Democrata nas eleições locais, em abril.

 

Embora EUA, China e Índia ainda não tenham definido as suas metas, uma proposta inicial da União Europeia prevê a introdução de uma 'taxa carbono’ nas importações. As empresas também estão usando essa janela de oportunidade para promover a colaboração em metas verdes. Um grupo de 155 empresas, avaliadas em US$ 2,4 trilhões e que empregam cinco milhões de pessoas, está exigindo que os governos alinhem as medidas econômicas à crise climática.

 

De acordo com a WGSN, atitudes recomendadas e que continuam a ganhar força no mundo corporativo para esse tema são: reforçar o conceito de negócios, marcas, produção e prédios mais ambientalmente responsáveis; apoiar estratégias que priorizem o investimento em infraestruturas verdes; antecipar-se às novas legislações, que deverão ser implementadas em alguns mercados e investir em iniciativas verdes; usar as políticas de estímulo ao investimento e priorizar a criação de empregos verdes; desenvolver também ferramentas que resultem em práticas sustentáveis; criar estratégias comerciais alinhadas a essas áreas de investimento.

Antirracismo
Recuperação Verde

A economia do bem-estar desponta

 

Enquanto os governos tentam reestruturar o cenário financeiro em meio à recessão, a economia do bem-estar ganha atenção especial. Diversos governos  estão se inspirando na estratégia implementada pela Nova Zelândia em 2019, cuja prioridade é o bem-estar da população, não o crescimento financeiro. Na Escócia, o Partido Nacional, que governa o país, começou uma consulta pública sobre o futuro pós-pandemia.

Temas como renda básica universal, saúde, bem-estar, moradia, comunidade e trabalho saudável estão na pauta. Tanto a Nova Zelândia quanto a Escócia, por exemplo, estão considerando a implementação de uma semana de trabalho de quatro dias para ajudar na recuperação das economias e, ao mesmo tempo, incentivar uma conexão equilibrada entre saúde e trabalho. A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, afirmou que essa medida visa manter a flexibilização laboral implementada durante a quarentena e também criar estímulos para fortalecer o turismo doméstico, que foi bastante afetado. Nicola Sturgeon, a primeira-ministra escocesa, sugeriu que a semana de quatro dias pode ajudar os responsáveis nesse momento em que as crianças não estão indo à escola em tempo integral.

De acordo com a consultoria WGSN, atitudes observadas e recomendadas no mundo corporativo para lidar com este tema de agora em diante são: conforme as pessoas retornam aos escritórios, conversar com as equipes e analisar o que pode ser feito para garantir o bem-estar de todos; além da implementação de benefícios, avaliar o aumento da produtividade, que pode ser alcançado com uma semana de quatro dias.

extensão de nós mesmos

3. O trabalho como

Trabalho como Extensão.png

A experiência vivenciada na pandemia por aqueles que puderam trabalhar no mesmo lugar em que moram, ao lado dos filhos e até mesmo dos animais de estimação, propiciou reflexões importantes sobre o significado do trabalho na vida. Essa é uma discussão que, de tempos em tempos, sofre mutações e, agora, está passando por mais uma que questiona inclusive o próprio conceito de trabalho, traz a discussão sobre as novas habilidades a serem adquiridas, sobre as que devem ser abandonadas e ainda cria novos desafios para a educação e formação dos profissionais do futuro. 

 

De acordo com o relatório americano "2020 State of Remote Work", 98% dos entrevistados disseram que agora gostariam de trabalhar remotamente pelo menos parte do tempo pelo resto de suas carreiras. A Covid-19 forçou quase 50% da força de trabalho nos EUA a trabalhar remotamente. É um grande aumento, considerando que antes da pandemia apenas 14,6% das pessoas podiam trabalhar em casa (WFH), de acordo com um estudo de maio de 2020 do MIT. A previsão é de que aproximadamente 25% a 30% dos profissionais trabalharão remotamente, vários dias por semana. No Brasil, são quase 8 milhões de pessoas trabalhando remotamente, segundo o IBGE.

 

Várias startups no Vale do Silício estão construindo plataformas semelhantes a jogos como "Fortnite" e "Animal Crossing" para equipes que trabalham remotamente, segundo artigo da Tech Crunch. Estão usando tecnologia espacial, animações e ferramentas de produtividade para criar um escritório virtual, que serve tanto para socializar quanto para contratar e demitir pessoas. Mas o escritório físico não vai acabar completamente para boa parte das grandes empresas no Brasil que estão optando pelo trabalho híbrido, ou seja, tentando criar modelos que preservam as vantagens do trabalho remoto e as faz convergir com práticas e hábitos de rotinas presenciais e almejam encontrar o cenário mais equilibrado possível.

As discussões e questões que giram em torno desse assunto são diversas e precisam de tempo para maturar. Contudo, só a existência dessas discussões impulsionam algumas tendências que já vinham ganhando força como a lógica do anywhere office, em que o trabalho não necessariamente ocupa o mesmo lugar da casa, mas, com os avanços digitais em termos de infraestrutura e de processos, ele passa a poder ser executado (no todo ou em parte) de qualquer lugar.

Novas ferramentas de negócios


Uma infinidade de novas ferramentas de negócios, então, começa a surgir para apoiar as novas dinâmicas de mudança da força de trabalho e apoiar formas mais colaborativas, híbridas e digitais de trabalho. O Notion, por exemplo, é uma ferramenta de colaboração de trabalho que está prosperando nestes tempos econômicos incertos. Em abril de 2020, a startup arrecadou US $ 50 milhões, atingindo uma avaliação de US $ 2 bilhões. Sua plataforma tudo-em-um permite aos usuários fundir notas, wikis e tarefas ao incorporar ferramentas atuais como Google Docs ou Evernote em um só lugar. 


Seguindo a mesma linha, em maio de 2020, o Facebook  anunciou uma nova série de ferramentas de colaboração em um lançamento intitulado “Construindo as ferramentas para impulsionar o futuro do trabalho”. O gigante da tecnologia lançou o Workplace Rooms, sua versão do Zoom, que permite aos colegas de trabalho fazer videochamadas com até 50 pessoas por um período ilimitado de tempo. Também desenvolveu sua ferramenta Live Producer para que os usuários possam utilizar ferramentas profissionais de vídeo para fazer transmissões ao vivo de seus computadores.

O dilema da produtividade


Embora o trabalho remoto traga vários benefícios, alguns profissionais não estão e não irão lidar bem com o modelo. Devido ao tempo ganho com o não deslocamento e as novas ferramentas colaborativas, surgem, portanto, promessas de aumento da produtividade e da eficiência que podem se cumprir como também podem apenas motivar uma pressão pessoal acompanhada de sobrecarga de trabalho. Em abril de 2020, a ferramenta de videoconferência Webex hospedou mais de 20 bilhões de minutos de reunião, contra 14 bilhões em março e 7 bilhões em fevereiro, o que significa taxas de participação mais altas para reuniões. De acordo com a Prodoscore, uma empresa de monitoramento de locais de trabalho, os trabalhadores nos EUA foram 47% mais produtivos entre abril e março de 2020, em comparação com os mesmos dois meses em 2019. Muitos executivos têm falado abertamente em meios de comunicação e mídias sociais sobre o surpreendente aumento da produtividade. O CEO da Box, Aaron Levie, disse: “Não podemos voltar a trabalhar da mesma forma. As coisas são mais rápidas e mais orientadas para a ação com trabalhadores remotos".


Por outro lado, embora os resultados de produtividade subam, o local de trabalho sempre ativo é emocionalmente desgastante para alguns funcionários, e o uso excessivo de telas digitais pode levar ao que já se tem convencionado a chamar de "fadiga do zoom". De acordo com a Harvard Business Review, parte do cansaço pode ser atribuída ao "olhar constante" que a videoconferência exige. 

Liderança Digital

A emergência de uma liderança genuinamente digital 


Várias respostas e perspectivas a respeito deste novo comportamento do profissional que passou pela experiência da pandemia e do isolamento social, adquiriu novas habilidades digitais e aprendeu que podia trabalhar remotamente estão na capacidade de se construir lideranças com capacidade de fazer a gestão híbrida ou remota das equipes.

A liderança digital poderá ser a chave que determinará o ritmo das mudanças no modelo das empresas atuais. Não se trata mais do domínio da tecnologia, mas sim das possibilidades que se pode implementar a partir do uso dela para criar equipes mais coesas e ambientes de trabalho – físicos ou digitais – que sejam mais colaborativos e que contribuam para fluidez do trabalho ao mesmo tempo em que sejam prazerosos e estejam comprometidos com o bem-estar de todos.

Não será tarefa fácil. Se tornar um líder fluente na gestão digital de pessoas requer habilidades que ainda não configuram no conteúdo de cursos e nas escolas de negócio. Estamos falando de habilidades de engajamento, comunicação, relacionamento e de gestão similares a de professores quando tiveram que se adaptar à educação a distância.

Instawork

Outros tópicos que estarão na agenda de aprendizados dos novos líderes é saber lidar com o crescimento de perfis de profissionais que buscam combinar trabalho com seu estilo particular de vida. As possibilidades abertas pela intensificação do trabalho remoto durante a pandemia levaram um maior número de profissionais a imaginar ou já iniciar a prática do trabalho estilo freelancer ou instawork (que trabalham por demanda).

Em tempos de crise econômica, a predileção crescente dos profissionais por estes estilos mais flexíveis pode ser a solução tanto para empresas quanto para o problema da escassez de postos fixos no mercado de trabalho. Se será uma mudança temporária ou que veio para ficar, as legislações locais cuidarão de responder. 

Enquanto isso, adeptos aceleraram o movimento do “nomadismo digital”, sobretudo aqueles que são membros de gerações mais jovens e que sonham em compatibilizar trabalho com outros desejos pessoais, como as viagens, provando que é possível trabalhar e viajar ao mesmo tempo, inspirando um estilo de vida mais autônomo. Isso tudo cria uma sensação de que as pessoas se tornam mais capazes de controlar suas carreiras, inclusive, de trabalhar para várias empresas de uma só vez.

Um desafio que essa tendência traz é a competitividade sem fronteiras. As empresas precisarão, cada vez mais, adaptar sua estratégia de capital humano para atrair profissionais que buscam por mais flexibilidade, bem como para competir por recursos humanos com empresas sediadas em outras cidades e em outros países. Isso também influencia nas estratégias e benefícios de retenção, que terão que sair do modelo de avaliação, feedback e planos de desenvolvimento tradicionais e tendem a se aproximar dos modelos de mentoria e coaching.  
 

Coworking

Descentralização geográfica e espaços de trabalho-satélite

À medida que os principais empregadores adotam práticas de trabalho cada vez mais flexíveis, a criação de espaços de trabalho compartilhados (coworkings) e de espaços-satélite para atender uma geração de funcionários remotos impulsionará a criação de novos tipos de escritórios, os "escritórios suburbanos". De acordo com o provedor de serviços de área de trabalho Regus, o trabalho flexível irá acelerar a mudança para o localismo e a regeneração das áreas suburbanas.


O resultado da adoção de políticas de trabalho flexíveis pelas empresas levará à necessidade de mais espaços satélites de cooperação para atender às necessidades dos funcionários que trabalham em casa. Cada vez mais, as sedes localizadas nas principais cidades serão descentralizadas e redistribuídas nas áreas suburbanas, dando vida a uma nova economia local. Um estudo da Regus, que cobre 19 países, prevê que o aumento de espaços de trabalho flexíveis criará potencialmente um valor de US $ 254 bilhões para as economias locais em todo o mundo na próxima década. Além de alterar a dinâmica tradicional da vida profissional, essa mudança também gerará um impacto positivo no meio ambiente e na sociedade, pois o teletrabalho minimizará drasticamente a pegada de carbono dos trabalhadores, ao mesmo tempo que melhora o equilíbrio entre vida pessoal e profissional

4. Cuidar de si para cuidar do outro

Um estudo publicado pela Harvard TH Chan em maio de 2020 retrata a autocompaixão como um importante recurso interno para passar por tempos difíceis. Pessoas que sofrem de burnout podem se beneficiar especialmente desta forma de cura, que permite aceitar suas imperfeições, além de oferecer uma sensação de segurança e conexão.

Olhar para si mesmo com menos cobrança desponta como tendência e está abrindo uma nova era para o movimento da autoimagem física. Do amor próprio radical à neutralidade do corpo, uma nova geração de influenciadores está promovendo apoio on-line a comunidades e encorajando uns aos outros a compartilhar suas próprias histórias para aguentar a pressão com aparência física. A alimentação intuitiva também está ganhando destaque, à medida que mais pessoas priorizam o prazer da comida com autocompaixão e respeito.

Autocompaixão antes mesmo de autoestima

 

Em uma sociedade cada vez mais competitiva, as gerações mais jovens estão lutando contra o esgotamento físico e emocional e contra o perfeccionismo, mais do que nunca. Em meio à pressão crescente, a autocompaixão está emergindo como uma forma eficaz de ajudar as pessoas a aceitar suas imperfeições, aumentar sua motivação e viver uma vida mais plena.

Um estudo de 2019 da WGSN descobriu que as práticas de autocompaixão podem não apenas reduzir o estresse, mas também promover uma sensação de segurança e conexão. Meditações baseadas em atenção plena e bondade vieram à tona com mais frequência durante a pandemia, bem como recursos criativos e ferramentas que ajudam as pessoas a se compreenderem melhor. Aplicativos já têm respondido a isso. O Mooda, por exemplo, é um diário digital que acompanha o humor para melhorar o bem-estar emocional. Já o Fika se concentra em exercícios emocionais baseados em terapia cognitivo-comportamental. Atualmente trabalhando com universidades do Reino Unido, o aplicativo visa integrar a aptidão mental, trazendo educação emocional para estudantes de todo o mundo.

Autoimagem física 2.0

 

Em meio a uma pandemia global também de desafios com a saúde mental, os jovens estão começando a adotar uma abordagem mais proativa para combater a ansiedade. Focada na autoconsciência, uma nova geração de ‘imperfeccionistas’ está usando as redes sociais, para abraçar abertamente suas vulnerabilidades e falhas, a fim de ajudar uns aos outros a aliviar as pressões em torno da aparência. De acordo com um relatório de 2019 da Fundação de Saúde Mental, 31% dos adolescentes do Reino Unido se sentiram "envergonhados" por causa de sua aparência física no ano passado, com as mulheres mais propensas a se sentirem insatisfeitas com seus corpos. Para cultivar uma autoaceitação mais profunda, mais pessoas estão começando a adotar a chamada "neutralidade corporal' em vez de uma positividade corporal.

Os influenciadores da Geração Z defendem a normalização de corpos com posts e hashtags que verbalizam a recomendação de não usar filtros que aprimorem fotos e vídeos. Eles expõem celulite, acne e 'imperfeições' consideradas normais. A defensora da neutralidade corporal e instrutora de condicionamento físico Bethany C Meyers lançou um aplicativo de condicionamento físico chamado "Projeto be.come", incentivando as pessoas a se exercitarem "porque amamos nossos corpos, não porque os odiamos". Enquanto isso, o Instagram se uniu à Associação Nacional de Transtornos Alimentares dos Estados Unidos para lançar uma nova iniciativa, #ComeAsYouAre. Junto com um guia de recursos sobre como tornar a plataforma mais favorável, a campanha apresenta três criadores com diversos tipos de corpos e experiências. Lançado pela ativista de beleza americana de Bangladesh Nabela Noor, Zeba é um movimento de mídia social e marca de roupas que se concentra no amor próprio e na celebração do corpo. Sua conta no Instagram compartilha mensagens estimulantes e histórias pessoais com sua comunidade #ZBabe.

Autocompaixão

Alimentação consciente e intuitiva

 

Como uma forma de prática do amor-próprio, a alimentação intuitiva tem ganhado adeptos, incluso nesse time, cada vez mais, os profissionais da alimentação. Conforme observado no projeto de inovação para 2022 da WGSN, estamos vendo um número crescente de ativistas e nutricionistas que apoiam as pessoas a se alimentarem melhor, sem que sejam adeptos a uma cultura de dieta restritiva. Equacionando o viver bem com o viver com prazer, trata-se de permitir que as pessoas resolvam seu relacionamento difícil com a comida e respeitem o que seu corpo realmente deseja, criando uma consciência alimentar. "Acho que, como cultura, chegamos ao fundo do poço de dietas e finalmente estamos entendendo como as coisas que estávamos fazendo para ajudar nossos corpos realmente doíam", disse Alissa Rumsey, uma conselheira alimentar intuitiva, à Well + Good. "É um processo dinâmico de aprender sobre seu corpo e responder com compaixão e respeito."

 

A alimentação mais consciente e intuitiva pode, em última análise, construir comportamentos alimentares saudáveis: "Eu descobri que a maioria das pessoas que fizeram as pazes com a comida e estão honrando sua fome naturalmente começam a gravitar em torno de mais frutas e vegetais", explicou Rumsey. À medida que mais pessoas abraçam a autocompaixão em uma era de ansiedade e medo, uma nova sensação de liberação deve ressoar: a que vem da chance de entrar em sintonia com nossas emoções. "Ate" é um aplicativo que funciona como um diário de alimentos, que permite aos usuários rastrear o que comeram, por que comeram e como se sentiram. Seu objetivo é ajudar as pessoas a mudar seus comportamentos alimentares com uma abordagem consciente e sem julgamentos.

Alimentação consciente