ECONOMIA

Como será amanhã? 
Responda quem puder.
Entre as questões mais incertas do futuro próximo, a economia está entre as que mais preocupam. De acordo com o ‘World Economic Outlook’ do Fundo Monetário Internacional (FMI), a pandemia desencadeou a pior crise econômica desde a Grande Depressão – com projeções de uma recessão de -3% na economia global em 2020. Para o Brasil, essa crise escancara a desigualdade, e teremos uma retomada lenta, segundo os economistas que vêm fazendo previsões desde o começo do confinamento. 

Mas nem tudo são más notícias. As previsões também têm se preocupado em olhar para "o copo meio cheio", como é o caso do Fórum Econômico Mundial (FEM) que apontou os 20 setores que transformarão a economia global no pós-pandemia. O estudo dividiu esses setores nos eixos: conservação do planeta, capacitação e proteção de pessoas e avanço do conhecimento. A expectativa é que eles possam mudar a forma de consumo e a relação que temos com os negócios, desde que sejam desenvolvidos por meio de uma agenda comprometida com inovação, tecnologia e transformação socioambiental. Segundo a análise feita pelo FEM, a pandemia de Covid-19 causou um ponto de disrupção econômica que está fazendo a sociedade encarar com outros olhos a maneira de produzir valor. E isso terá impacto nas três dimensões que mais afetam a experiência pessoal de cada indivíduo do ponto de vista econômico: como ele vive, como gera renda, e como gasta seu dinheiro. Já do ponto de vista das empresas, será possível, acompanhar macro e microrrevoluções no sistema capitalista que já estão iniciando e que tendem a ganhar força de agora em diante.

Uma nova realidade urbana

Uma nova realidade urbana.png

A vida na cidade já estava começando a ser questionada nos países mais desenvolvidos mesmo antes da pandemia, principalmente por conta da desigualdade econômica e da perda de qualidade de vida. 

À medida que seguimos combatendo a Covid-19, abre-se uma chance para reconstruir a cidade para as sociedades do futuro, criando espaços que sirvam aos novos estilos de vida dos cidadãos.

Os grandes centros urbanos foram os motores do crescimento econômico nos últimos anos. No Brasil, sete municípios concentram 25% do PIB, concentrando 13,6% da população: São Paulo (10,6%), Rio de Janeiro (5,1%), Belo Horizonte (1,3%), Curitiba (1,2), Osasco (1,1%) e Porto Alegre (1,1%), segundo dados de dezembro de 2019, do IBGE. Metrópoles como São Francisco, Boston e Nova York foram responsáveis por 72% dos novos empregos desde a crise financeira dos EUA. Em contraste, áreas metropolitanas menores – com população entre 50.000 e 250.000 habitantes – perderam força, contribuindo com menos de 6% dos novos empregos. A taxa de emprego, no entanto, segue em níveis pré-recessão em diversas microcidades, de acordo com uma pesquisa do Brookings Institution. Esse é um cenário comum nos países desenvolvidos.

Mas essa realidade passa a ter drivers de mudanças consideráveis. Previsões apontam que 40% das atividades profissionais serão realizadas remotamente mesmo após a pandemia, o que diminui a necessidade de viver e morar nas cidades por causa do trabalho . O declínio do poder de compra, novos hábitos em relação aos espaços físicos também são elementos que fortalecem movimentos de êxodos urbanos que já vinham se intensificando antes da pandemia por outros motivos. Metrópoles mundiais como Nova York, Los Angeles e Chicago têm visto a população diminuir nos últimos anos, de acordo com o Brookings Institution. O crescimento nas principais áreas metropolitanas dos EUA caiu pela metade na última década. Na Europa acontece algo semelhante. A população de Paris também diminuiu, e embora Londres tenha passado por um boom de nascimentos e imigração, houve um declínio no volume de migração interna para a cidade (dados secundários obtidos nos cinco últimos anos pela WGSN).

A Cidade de 15 minutos


O conceito de "cidade de 15 minutos" está encontrando mais espaço, pois está em sintonia com o desejo das pessoas por um estilo de vida mais local. As cidades mais parecidas a vilarejos, em que tudo pode ser feito localmente de modo rápido e prático, despertam o interesse de quem está redefinindo os hábitos. Embora muitas pessoas gostem da ideia de retornar aos escritórios, pós-pandemia, o deslocamento médio de uma hora de duração está sendo questionado. Esse tempo é visto como um desperdício entre um público que aprendeu a usá-lo para melhorar a qualidade de vida. 

Melbourne e Cingapura estão investindo em um modelo policêntrico, enquanto a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, fez do conceito de "cidade de 15 minutos" um dos pilares da sua campanha pela reeleição. A meta é a criação de comunidades mais autossuficientes em cada bairro da capital francesa, em que supermercados, parques, cafés, instalações esportivas, serviços de saúde, escolas e escritórios possam ser facilmente acessados a pé ou de bicicleta.

A cidade de 15 minutos.png

Despriorizando o carro


Com a ascensão do modelo de "cidade de 15 minutos", os governos estão investindo em sistemas de transporte mais sustentáveis. O medo de usar o transporte público durante uma pandemia é bastante presente e as medidas de distanciamento social continuam  reduzindo significativamente sua capacidade. Depois de perceber a melhora da qualidade do ar durante a quarentena, diversas cidades estão implementando medidas para restringir o uso de carros, com o objetivo de melhorar a saúde da população. Com a retomada da economia e a tentativa de evitar o retorno ao cenário desumano de engarrafamento, as pessoas estão mais sensibilizadas a caminhar ou a andar de bicicleta.

A região central de Londres está sendo remodelada para pedestres e ciclistas, possibilitando manter o distanciamento social nessa que será uma das maiores zonas metropolitanas sem carro do mundo. A Cidade do México também ampliou o número de ciclofaixas, como já fizeram Milão, Berlim e Bogotá. A capital da Colômbia, inclusive, transformou 35 km de faixas de tráfego em ciclofaixas de emergência usando cones temporários.
 

Despriorizando o carro.png

Comunidades urbanas impulsionam o comércio local 


Tradicionalmente, as cidades sempre tiveram a capacidade de ampliar a sensação de isolamento. De acordo com dados de 2018, da Secretaria Nacional de Estatísticas do Reino Unido, 19,5% das crianças que vivem nas metrópoles se sentem sozinhas com frequência, contra apenas 5% daquelas que vivem em cidades menores ou em áreas rurais. Mas, durante a pandemia, uma pesquisa da consultoria YouGov apontou que, de 4.343 pessoas entrevistadas no Reino Unido, 40% diziam ter um forte sentido comunitário e 39% se sentiam mais próximas de amigos e da comunidade. Já um estudo da ONG Partnership for New York City descobriu que cerca de 1/3 dos 240.000 pequenos negócios nova-iorquinos podem nunca mais reabrir, um duro golpe aos comércios que, com frequência, formam o tecido social das comunidades locais.

 

No paralelo, cada vez menos pessoas se mostram interessadas em ter um imóvel próprio. Isso cria um sentido de transitoriedade nas cidades maiores e torna mais importante reforçar o aspecto comunitário, com o objetivo de fortalecer os comércios locais e diferenciar os bairros. 

 

Mesmo com o relaxamento das medidas de quarentena, as pessoas exploram mais as opções e alternativas ao redor das suas casas. Isso as torna mais propensas a desenvolver vínculos mais locais que resultam em melhorias na comunidade, como por exemplo a de priorizar o comércio local.

 

Esse comportamento social pode alavancar, em determinados pontos do globo, ondas de localismo e um resgate da importância do viver em comunidade. Para a economia e o empreendedorismo local, é uma janela de oportunidades que se abre. Mas o que determinará quanto tempo ela deve ficar aberta será a elaboração e a implementação de políticas públicas que suportem o processo de reaquecimento do comércio e que favoreçam as condições para a chegada de novos empreendedores.

Carlos Melles, presidente do Sebrae, destaca a importância estratégica dos pequenos negócios para o país: “As micro e pequenas empresas representam 99% de todas as empresas brasileiras, geram quase 30% das nossas riquezas e são responsáveis por 55% do nosso estoque de empregos formais. Nesse momento de crise, é a micro e pequena empresa que vai fazer o país retomar seu caminho”. A pandemia de coronavírus mudou o funcionamento de 5,3 milhões de pequenas empresas no Brasil, o que equivale a 31% do total. Outras 10,1 milhões, ou 58,9%, interromperam as atividades temporariamente. É o que mostra a segunda edição da pesquisa “O impacto da pandemia de coronavírus nos pequenos negócios”, realizada pelo Sebrae e divulgada em abril de 2020. Entre as empresas que continuaram funcionando, 41,9% realizam agora apenas entregas via atendimento online. Outros 41,2% estão trabalhando com horário reduzido, enquanto 21,6% estão realizando trabalho remoto.

 

Neste ponto, as alternativas de digitalização dos negócios que expandiram em detrimento dos limites impostos pelo isolamento social também contam a favor. Ela abre oportunidades para redução de custos e para que pequenos consigam competir com grandes em condições semelhantes. A depender da influência do comércio local nos hábitos de consumo dos cidadãos, pode-se prever um interesse maior de investidores como também de grandes empresas interessadas em novas aquisições, o que representaria uma tendência de expansão de negócios baseada em geolocalização de consumo.

A revolução do microempreendedorismo também nas pequenas cidades


Uma nova geração de microempresários está surgindo com formas criativas de revitalizar e aumentar a competitividade regional nas pequenas e médias cidades. Como o coronavírus impulsiona o "hiperlocalismo" em todo o mundo, a mudança da massa para o micro está acelerada. Alimentados por criatividade, um número crescente de empreendedores de pequenas cidades está procurando revitalizar as comunidades rurais e criar novas oportunidades.

Ecoando esse sentimento, o empresário social de Bangladesh e ganhador do Nobel, Muhammad Yunus, vê a migração reversa induzida pela pandemia como uma chance de criar uma nova ordem mundial. Ele aponta o microempreendedorismo nas áreas rurais como uma solução sustentável para diminuir a dependência das áreas urbanas. Há uma nova iniciativa na Província de Gyeongbuk, na Coreia do Sul, para revitalizar a comunidade local e aumentar a competitividade regional. Ela apoia o assentamento rural de jovens empreendedores talentosos, oferecendo a eles US $30.000 por pessoa. Com o objetivo de atrair mais 2.300 jovens empreendedores até 2030, a iniciativa já está obtendo resultados positivos, desde o lançamento de polos culturais centrados na juventude até pousadas e cafés que vendem produtos de artesãos locais.

Em 2020, uma comunidade de voluntários portugueses chamada Rural Invest uniu-se durante o surto para revitalizar o campo português. Lançou uma plataforma on-line, a Rural Move, para ajudar novos talentos a aderirem às zonas rurais de Portugal e a alcançarem bem-estar, competitividade e dinamismo económico através do trabalho à distância.

Microempreendedorismo nas pequenas cidad

Rumo às cidades inteligentes?


O novo coronavírus colocou à prova as já consideradas "cidades inteligentes" e expôs a gravidade dos problemas históricos que cidadãos já vinham enfrentando por décadas nas grandes cidades. 

 

De acordo com a consultoria PWC, o mercado global de "cidades inteligentes" (conceito de cidade criativa e sustentável, que faz uso da tecnologia em seu processo de planejamento com a participação dos cidadãos) deve movimentar mais de US$ 42,5 trilhões até 2025, à medida que os governos trabalham com o setor privado para desenvolver soluções digitais e criar um ecossistema digital urbano. Em Cingapura, tida como uma das cidades mais inteligentes do mundo o primeiro ministro Lee Hsien Loong implementou o uso de um registro detalhado dos movimentos e interações de cada infectado nos 14 dias anteriores à admissão no hospital, identificando todos as pessoas que tiveram contato com o paciente. A rede de sensores inteligentes que monitora a qualidade do ar em Londres foi readequada para identificar veículos, ciclistas e pedestres, com o objetivo de checar se as pessoas estavam obedecendo a quarentena. Essas informações estão sendo usadas por urbanistas para saber em que áreas a atividade econômica está sendo retomada e em quais regiões o governo precisará intervir.

 

Por outro lado, esta não é a realidade tecnológica de grandes núcleos urbanos localizados nos países de terceiro mundo. Grandes problemas de segurança pública, logística e de abastecimento, por exemplo, chamaram a atenção. Um pesadelo atual para os cidadãos sem deixar de ser oportunidades de negócio para grandes empresas ou ainda conglomerado de empresas que desejam expandir sua atuação, diversificar seus negócios ou investir. Para governos regionais e nacionais de todo mundo, a pandemia mostrou a dimensão de seus problemas atuais e adicionou novos. Isso trouxe sentido de urgência, o que favorece um cenário em que os governos estão mais propícios para parcerias com a iniciativa privada ou partir para privatizações. 

 

No Brasil, por exemplo, as medidas de isolamento social testaram os limites dos serviços de transporte de mercadorias, logística e de correspondência. Todos essenciais para o ritmo da economia no País. Oportunidades já discutidas sobre a privatização dos correios por gigantes como a Amazon e a Magazine Luiza, continuaram acesas e podem ganhar mais força. O mesmo pode acontecer no que diz respeito a áreas essenciais como educação, saúde e segurança pública. A máquina do Estado está pesada e lenta e isso pode aumentar o apetite das empresas por novos negócios.

Economia frugal

Com uma mentalidade de controle de gastos de quem está saindo da quarentena ao mesmo tempo em que sofre os impactos da recessão, os consumidores estão apreciando a simplicidade de um estilo de vida econômico e procurando maneiras mais efetivas e criativas para economizar. Para servir às necessidades de consumidores sensíveis a preços, as empresas devem abraçar a economia frugal para reinventar seus valores e modelos de negócios.

Abraçando o frugal

 

Já que a pandemia remodelou a paisagem socioeconômica em todos os países, algumas pessoas procuram olhar pelo lado positivo e abraçar a simplicidade de seus novos estilos de vida econômicos. 

 

Os consumidores estão mudando suas perspectivas sobre a frugalidade. De acordo com uma pesquisa de 2020 do Slickdeals, 67% dos americanos consideram ser chamados de "frugal" um elogio, enquanto 65% afirmam que a pandemia os transformou em pessoas mais econômicas e 51% se sentem mais espertos em relação ao dinheiro, em comparação aos 42% de 2018. Com um interesse em viver uma vida frugal crescendo cada vez mais, a comunidade do Reddit "Frugal Living" viu um aumento de 200% de visualizações na segunda semana de agosto de 2020. Os 1,3 milhões de membros focam em dividir maneiras criativas de gastar menos e ganhar mais enquanto imaginam um futuro melhor, discutindo tópicos como semanas de 4 dias de trabalho e renda básica universal. Com o passar do tempo, não é improvável que um número crescente de consumidores adote esse estilo de vida mais simples.

Abraçando o frugal.png

Reavaliando modelos de negócio

Na última recessão global, em 2008, 18% dos consumidores começaram a comprar de marcas mais acessíveis e 46% deles se surpreenderam pela qualidade desses itens, de acordo com a McKinsey. Para se preparar para a desaceleração econômica e a redução dos gastos dos consumidores, corporações devem revisitar o que foi feito na última crise, mudando as prioridades de seu portfólio baseando-se nas mudanças do consumidor e construindo uma rede de fornecimento mais resiliente. Por exemplo, grandes companhias de alimentos e bebidas estão reavaliando seu portfólio inteiro de produtos para oferecer opções mais acessíveis. Para simplificar suas redes de fornecimento, a Nestlé, PepsiCo, Kellogg's e Mondēlez International Inc agora estão focados em reduzir a variedade de seus produtos básicos. 

Em 2020, entrou em vigor a nova estratégia de longo prazo da IKEA. A iniciativa New Lower Price prevê ajudar consumidores com restrições de custo. Na Índia, a Amazon se uniu à marca de moda acessível Easybuy para atingir consumidores preocupados com os preços nas cidades de Tier. Enquanto as corporações se esforçam para inovar frugalmente, microempresas vão ter um papel crítico na sobrevivência à recessão. O estudo da GoDaddy (empresa registradora de domínios e hospedeira de sites), descobriu que países com maiores concentrações de microempresas e empreendimentos tiveram menos perdas de emprego em abril de 2020. Empresas que ajudaram pequenos empreendedores a navegar por essa recuperação da pandemia vão ganhar confiança e lealdade durante períodos difíceis.

Novos meios para circulação do dinheiro

De aplicativos de fintechs que proporcionam uma maneira fácil de acessar o mundo dos investimentos a outros serviços que oferecem alternativas de crédito, os desafios de 2020, desencadearam novas formas e estímulos para o dinheiro girar em nossa sociedade. 

Pagamentos e carteiras mais digitais

 

Dados da empresa americana de análise de dados de aplicativos de celular app Annie mostraram um aumento de 20% nos downloads de aplicativos financeiros, em março de 2020, comparado ao último trimestre de 2019, com Monzo, o PayPal e o Barclays Mobile Banking liderando a tendência. Já o banco digital dos EUA Chime registrou o seu maior número de novas inscrições esse ano. Com o limite de pagamento à distância aumentando na Europa e o dinheiro vivo sendo visto como um risco para a saúde, as fintechs e as empresas tradicionais da área vão precisar acomodar o aumento subsequente de pagamentos feitos pelo celular e cartão. 


No Brasil, o Pix surgiu para flexibilizar os sistemas de transferência de pagamento, quebrando os limites de horário dos tradicionais TED e DOC. O novo sistema de pagamentos instantâneos terá grande impacto na experiência do cliente e na forma como ele irá se relacionar com as empresas, sejam elas do setor de varejo, telecomunicações, seguros, fintechs ou do mercado financeiro. No caso de processos de cobrança, pagamentos de contas atrasadas e negociações de dívidas poderão ser feitos mais rapidamente, beneficiando ambas as partes. Utilizar bem essa nova tecnologia será fundamental para que as empresas superem a atual crise de forma mais rápida e gerem novas oportunidades de negócios. Outro ponto relevante é que os pagamentos instantâneos continuarão ganhando importância ainda maior num contexto de pandemia, por reduzirem o contato direto das pessoas com o dinheiro. E isso irá criar diversas oportunidades para as empresas encantarem seus clientes, além de ampliarem suas vendas.

 

Uma vez no ambiente digital e a crescente naturalização da movimentação de dinheiro de diferentes maneiras, haverá oportunidades para a expansão do mercado de pontos, fidelidade e clube de benefícios que têm crescido 11,6% ao ano e faturou R$ 7,7 bilhões entre 2019-2020. Segundo, João Pedro Paro Neto, presidente da Abemf, há vários motivos para esse desempenho e um deles é a maior adoção de tecnologia por parte das marcas, o que, além de “gerar acessibilidade, possibilita a personalização de ofertas direcionadas às necessidades e aos desejos de cada perfil de consumidor”. Outro motivo importante é a diversificação de segmentos que estão apostando neste mercado no Brasil, que, há algum tempo, não está mais restrito a viagens e cartões de crédito. Em tempos de pandemia, as empresas mostraram o quanto uma economia baseada em acúmulo e troca de pontos faz parte da sua estratégia de crescimento e competitividade. A Mastercard, por exemplo, estendeu de dois para três anos a validade dos pontos acumulados por seus clientes até dezembro de 2020. A marca, também, passou a oferecer pontos em dobro para todas as transações em que não era usado o cartão de crédito físico, numa clara mensagem de incentivo de compras em e-commerce, via carteiras digitais e contactless.

Pagamentos e carteiras mais digitais.png

Microinvestimento

 

Os aplicativos de microinvestimento deixam os usuários investirem um pequeno montante de dinheiro sem precisar entender sobre o  mercado de ações e proporcionam às pessoas um senso de otimismo ao serem pró-ativos com o seu dinheiro. A Stash, uma start-up fintech sediada em Nova York, foca no investimento acessível e no banco on-line fácil de usar, com vários tipos diferentes de contas, incluindo de aposentadoria, investimento e de custódia. O aplicativo também coloca uma grande ênfase na educação, fazendo o investimento parecer mais fácil de gerenciar e focando no objetivo de ajudar seus usuários a conquistar seu bem-estar financeiro. Em abril, a Stash completou sua sexta rodada de investimento, levantando US$112 milhões.

No Brasil, onde a população ainda não tem uma cultura voltada ao investimento individual, o ano de 2020 representou a continuidade do que pode vir a ser uma mudança de paradigma. Seguindo essa tendência mundial, diversos bancos e empresas de investimento continuaram e encontraram ambiente favorável para o lançamento e amadurecimento de seus serviços de investimento. Fintechs como o Banco Inter e o Nubank lançaram suas plataformas de investimento aliadas à tecnologia e promessas de desburocratização e facilidade. 

O serviço de gerenciamento de patrimônio digital Nutmeg também permite que as pessoas comuns se familiarizem com investimentos, usando ações controladas por computador e compartilhando uma conta poupança livre de impostos (ISA) para fazer o trabalho difícil para eles. Os usuários criam um perfil rapidamente e selecionam o risco que querem correr, e o aplicativo faz o resto. No Japão, o SBI Neo Mobile tem como alvo os clientes que nunca investiram, normalmente nos seus 20 a 30 anos de idade, permitindo que eles invistam o mínimo de um dólar. Os clientes podem usar pontos acumulados nos seus cartões T-Points, um programa de dinheiro pré-pago e de recompensas amplamente difundido, para investir. Em abril, o banco digital dinamarquês Lunar lançou uma plataforma de negociação fácil de usar focada em usuários com pouca ou nenhuma experiência em investimento, que chega num momento em que as pessoas querem experimentar novas maneiras de se beneficiar financeiramente de maneira mais responsável.

Micro-investimento.png

Alternativas de crédito

 

Durante o isolamento, os consumidores estão cada vez mais apostando nas opções "compre agora e pague depois" (BNPL, sigla em inglês), principalmente para as compras de maior valor, ligadas ao novo estilo de vida imposto pelo período de quarentena. Por exemplo: com o fechamento de academias, alguns aparelhos de ginástica foram sendo trazidos para dentro de casa. Observando essa tendência de equipar a casa com esse tipo de infraestrutura, as marcas estão criando planos BNPL para facilitar as compras e permitir que os consumidores mantenham sua saúde financeira. Oferecer esse tipo de ajuda econômica de curto prazo tem sido a principal estratégia de várias empresas grandes durante a crise - e que, sem dúvida, cria clientes fiéis a longo prazo.

Os varejistas também estão de olho no "compre agora e pague depois", principalmente em plataformas como a Afterpay, a Klarna, a OpenPay e a Sezzle, para garantir que as pessoas possam continuar consumindo nessa época. A Affirm diz que viu um aumento nas vendas do Walmart e da Target, um crescimento de 92% nas vendas dos artigos para escritórios da Uplify Desk e um aumento de 40% de marcas de eletrodomésticos, incluindo a Dyson. As start-ups "compre agora e pague depois" oferecem aos clientes que foram afastados temporariamente do seu emprego uma maneira de financiar as suas compras enquanto o seu salário não está sendo pago, funcionando como uma maneira de aliviar a ansiedade.

Marcas e varejistas estão encontrando jeitos criativos de incorporar elementos DIY aos seus novos produtos. No segundo trimestre deste ano, a Nike criou modelos de tênis que podiam ser 'descascados', revelando camadas de cores ocultas. Além de estimular a criatividade, essa estratégia possibilitou ao público imaginar o próprio calçado. As marcas estão aproveitando o apelo DIY do app Depop e usando a plataforma para vender diretamente ao consumidor. 

Novas possibilidades de moedas e o futuro dos dados 

Ao alavancar suas proezas digitais e abraçar estilos de vida contemporâneos e alternativos, as pessoas estão encontrando maneiras criativas de ganhar dinheiro e redefinindo o significado do trabalho.  A pandemia derrubou incontáveis empregos, deixando todos particularmente suscetíveis à crise econômica. Como resultado, esses nativos digitais estão usando novas ferramentas para ganhar micropagamentos.

Reviravolta do fornecedor: lucrando com os dados

 

A revolução dos dados pessoais está aqui, e empresas experientes entendem que é hora de capturar, controlar e lucrar com seus dados pessoais. Em um estudo do Center for Generational Kinetics,  44% dos entrevistados da Geração Z estavam dispostos a trocar informações pessoais em troca de experiências personalizadas. Corretores de dados estão surgindo e melhorando suas soluções de gerenciamento de consentimento para melhor atrair os nativos digitais. O aplicativo Killi oferece aos usuários duas opções para monetizar seus dados. Os usuários podem preencher pesquisas de mercado e assistir a anúncios em vídeo por meio do aplicativo, onde quanto mais eles se envolvem, mais dinheiro podem ganhar. Depois que os usuários configuram um perfil, eles também podem decidir compartilhar suas informações (desde a data de nascimento até a afiliação política) com os clientes de Killi, principalmente agências de publicidade e empresas de pesquisa. Os usuários podem ver quem compra esses dados e obter uma redução de 50% dos lucros.

 

Em junho de 2020, a Killi integrou o acesso a 20.000 das maiores instituições financeiras do mundo, permitindo que os consumidores optassem e colocassem as transações bancárias e com cartão de crédito sob seu controle. Este novo módulo de receita passiva permitirá que os consumidores sejam pagos para compartilhar dados de compras. 

 

Da mesma forma, outro corretor de dados, o Universal Basic Data Income (UBDI), também permite que os usuários agreguem seus dados de outros aplicativos, como Fitbit ou Instagram, em um único pool criptografado em seus telefones. A start-up lançou sua versão beta em dezembro de 2019 e acredita que as pessoas podem ganhar bem mais de US $1.000 anualmente com seus dados em apenas algumas horas - um verdadeiro passo à frente para ideias como Renda Básica Universal, Dividendo Digital ou Tecnologia Verifica. Várias outras plataformas neste espaço existem e continuarão a surgir em conjunto com a crescente demanda por dados.  

A vez do Bitcoin

 

No fim de 2020, o Bitcoin atingiu seu recorde  ao atingir o maior valor de sua história e superar a marca dos US$20 mil.
Conhecida por sua volatilidade, essa criptomoeda subiu mais de 170% neste ano, em meio à turbulência no mercado de ações. Alguns analistas apontam que a pandemia encorajou os investidores a reavaliar as perspectivas de longo prazo para o Bitcoin, mesmo com as preocupações sobre a negociação fraudulenta de criptomoedas após diversos episódios de roubos por hackers. Isso ocorre porque, em tempos de volatilidade, a regra é diversificar. E alguns acreditam que as criptomoedas agora estejam sendo vistas como uma diversificação.

 

Motivada pela descentralização do setor, portanto diferentemente do dólar ou de ações, que dependem das decisões de um governo, o Bitcoin não é impactado pelo isolamento social ou pelo fechamento do comércio, mas pela velha lei de livre mercado, de oferta e procura. A grande lição que a pandemia trouxe aos investidores do mercado criptoativo foi entender a importância de analisar as aplicações em Bitcoins a longo prazo, graças ao seu potencial de impacto em termos de tecnologia.

Lucrando com os dados.png

Navegadores que geram moeda

 

O Brave é um navegador da web gratuito, descentralizado e de código aberto desenvolvido no blockchain Ethereum. 
Em janeiro de 2019, o navegador com foco na privacidade começou a visualizar um novo modelo de publicidade, que promete canalizar 70% da receita ganha para os usuários que carregam e visualizam os anúncios. Os 30% restantes vão para os desenvolvedores do navegador. Os anúncios corajosos são apresentados separadamente do conteúdo da web dos usuários em um momento conveniente e mantêm seus dados pessoais completamente privados e anônimos.

 

A divisão da receita ocorre por meio do Brave Rewards, um recurso opcional na versão desktop do navegador. Uma vez ativado, ele exibe anúncios que os usuários podem visualizar para ganhar um token digital, chamado Basic Attention Token (BAT). Uma vez por mês, o Brave Rewards envia a quantidade correspondente de BAT, dividida com base na atenção dos usuários, de sua carteira local baseada no navegador para os sites que eles visitaram. Além disso, o site permite que os usuários removam sites aos quais não desejam oferecer suporte e dê dicas diretamente aos criadores. Os usuários também podem ganhar dicas de BAT para conteúdo original que publicam na web por meio do navegador.

 

O Brave continua a crescer e ganhar força com os jovens consumidores. Na verdade, o Cointelegraph relatou recentemente que o número de usuários ativos mensais no navegador aumentou 125% no ano passado, atingindo 15,4 milhões de pessoas no final de maio de 2020. Em junho de 2020, Brave anunciou uma nova parceria com o grupo pop coreano BTS e Rush Gaming fornecerão uma versão de edição limitada de seu navegador para residentes no Japão. Os usuários do navegador de edição limitada podem ganhar pontos assistindo a anúncios para apoiar a equipe de esportes do Rush Gaming.

A vez do Bitcoin.png

Os reflexos para o capitalismo ao longo do tempo

“Não podemos voltar à normalidade. O normal é o que nos levou não apenas a este caos, mas também à crise financeira e à crise climática”, foi o que enfatizou Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação na University College London, durante uma entrevista para a BBC News. Para Branko Milanovic, economista sérvio-norte-americano e professor nas universidades Johns Hopkins e London School of Economics, “as estruturas capitalistas foram construídas com o pressuposto de que tudo aconteceria como foi originalmente planejado.  Isso significa que elas foram construídas contanto que não houvesse grandes choques. E o que a pandemia fez foi causar um enorme choque”. E será este fenômeno inesperado que, a partir de agora, passa a ser determinante para a reinvenção do sistema e, eventualmente, seria capaz de mudar as próprias estruturas capitalistas em si.

Forças macroeconômicas.png

Forças macroeconômicas

 

Em linhas gerais, é essencial que novas estratégias econômicas levem em consideração a influência de forças de ordem global que se delinearam em 2020. Entre as principais podemos citar:

No ritmo da pandemia: na medida em que a corrida pela vacina toma a cena nos planos de médio e longo prazo das nações, a pandemia ainda figurará como um direcionador para os investimentos e o desenvolvimento econômico ao redor do globo. Chama a atenção qual será o impacto da mudança de pandemia para epidemia na medida que os resultados prometidos pela vacinação serão alcançados.

Antiamericanismo em declínio: as promessas e o perfil de governante democrata de Joe Biden, presidente eleito nos Estados Unidos aponta que haverá esforços para que as relações internacionais sejam retomadas e amenizadas com diversas nações do mundo. O "trumpismo" não deixará de existir, mas sofrerá efeitos colaterais de uma agenda mais plural implementada pelo novo presidente.

O “efeito China” persiste: além de ser a segunda maior economia do mundo, a China foi um dos primeiros países a criar mecanismos de controle do vírus e intercalar estes mecanismos com a retomada econômica. Caso o plano continue funcionando, a China persistirá no seu plano de se tornar a maior economia do mundo até o final da década. Chama atenção os investimentos em tecnologia de fronteira, como 5G e inteligência artificial, bem como os investimentos em infraestrutura, transporte e logística de ponta, o que a torna fortemente competitiva. 

 

Mais União Europeia do que nunca?: os atritos internos no bloco persistem, mas a existência de um inimigo comum, o novo coronavírus, trouxe a necessidade de uma agenda conjunta a médio e a longo prazo, uma vez que não há como prever o final da situação de pandemia. Com isso, as políticas e acordos de desenvolvimento regional podem ser aceleradas em diversos tópicos.

Por onde andará o Mercosul?: o baixo interesse do “gigante” do bloco, o Brasil, em intensificar e evoluir as relações entre os membros alinhado ao descasamento de prioridades e a incidência dos fragmentos da ideologia trumpista tendem a repelir mais do que unir. O horizonte não mostra sinais promissores de articulação econômica, nos assuntos de segurança e geopolítica. 

O novo papel para o Estado

 

Não é uma unanimidade, mas um grupo relevante de especialistas, como o professor Branko, está esperando que os efeitos pós-pandêmicos elevem o grau de importância do Estado em cada país e, como consequência disso, afetem a globalização.

Mariana Mazzucato, na mesma direção, lembra que a crise expôs insuficiência na capacidade dos Estados e que a maneira como o capitalismo entendeu o papel do Estado no último meio século foi inadequada. O resultado disso é que os governos, nem sempre, estão adequadamente preparados para lidar com crises como a pandemia de Covid-19. Considerando que precisam esperar até que ocorra um grande choque sistêmico para agir, as medidas tomadas acabam sendo insuficientes.

Sendo assim, a partir de agora, os Estados devem se ocupar mais a criar valor investindo e inovando para encontrar novas maneiras de fornecer serviços públicos. A dimensão em que farão isso, determinará se estaremos diante de um sistema capitalista diferente do que vimos até agora. Será hora de repensar para que servem os governos, segundo Mazzucato.

O apelo social e a realização de eleições nacionais em diversas democracias nos próximos anos, podem acirrar a discussão de novas políticas de desenvolvimento econômico em que os governos revejam seu papel e não simplesmente corrijam as falhas de mercado quando elas surgirem, mas avancem ativamente para criar mercados mais resilientes enfrentar os desafios. Com isso, a tendência é que, em termos de globalização, haja um comportamento diplomático e de aproximação para aliança entre os países que estejam mais ou menos comprometidos com esta nova agenda para o Estado.

Como as empresas vão recomeçar a se planejarem

 

Para o professor de direção estratégia no IESEA, Pascual Berron, “as crises fazem com que você demonstre quem é, o que prioriza. Essa (do novo coronavírus) irá demonstrar quem estava comprometido”. Este não deixa de ser um recado para as empresas e como será a sua postura frente aos negócios neste momento de reflexão sobre o sistema capitalista. Uma matéria do El País de março 2020 resgata que, nos últimos anos, antes da pandemia, as corporações vinham em uma discussão crescente de que os negócios não deveriam gerar valor apenas para os acionistas, e sim para os funcionários, os clientes e as comunidades em em seu entorno e provocou: “Chegou a hora da verdade. A resposta a essa crise será diferente da de 2008? As empresas se lembrarão, dentro de sua margem de ação, desses 'grupos de interesse'?”

Mazzucato parece ter uma resposta para isso. Ela afirma que quando as condicionalidades são bem-sucedidas, elas alinham o comportamento corporativo às necessidades da sociedade. No curto prazo, isso se concentra na preservação das relações de trabalho durante a crise e na manutenção da capacidade produtiva da economia. Já a longo prazo, a questão é mais complexa, trata-se de garantir que os modelos de negócios levem a um crescimento mais inclusivo e sustentável.

Repensar qual será esse novo papel e alinhá-lo ao novo planejamento estratégico de seus negócios não será tarefa fácil para as empresas, que, em países como o Brasil, ainda vivenciam a situação de contraste com o poder público relacionado a críticas a quantidade e volume de impostos, mas em momentos de crise, olham para o Estado a procura de soluções urgentes.

Contudo, especialistas como Enrique González, professor de Economia no Icade, apostam que o modelo de ganhar dinheiro sem levar em consideração todos os stakeholders pode estar com os dias contados. Para ele, a visão a curto prazo que pode favorecer o acionista e o executivo serve hoje e caduca amanhã. "O acionista não deve ficar desprotegido, assim como as outras pessoas envolvidas”.

Como as empresas vão recomeçar.png
Sem cometer os mesmos erros do passado.png

Sem cometer os mesmos erros do passado

 

Soluções focadas nos homens: durante a recessão de 2008 nos EUA, o desemprego afetou mais os homens do que as mulheres, principalmente em áreas dominadas por eles, como os setores de finanças e construção. O plano de recuperação priorizou os homens, quando foram feitos investimentos em infraestrutura para criar mais cargos com perfil masculino.

Os efeitos econômicos do coronavírus afetaram de modo desproporcional o emprego e as perspectivas de futuro para as mulheres, principalmente negras e de outros grupos marginalizados. Décadas de progresso social e econômico podem ser perdidas, mas governos e empregadores estão sendo pressionados a garantir que as mulheres tenham seu lugar novamente no mercado de trabalho. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que quase metade dos lares brasileiros são sustentados por mulheres. O percentual de casas com comando feminino salta de 25% em 1995 para 45% em 2018, com inserção no mercado de trabalho, mas sempre muito puxado por lares monoparentais, principalmente em famílias de baixa renda. 

A crise agravada pela pandemia verá o desemprego afetando mais as mulheres do que os homens, em todo o mundo. A pandemia transformou drasticamente o setor de serviços, que emprega 41% do total da população feminina e 35% da masculina. Embora estejam sem emprego ou tendo que se dedicar a cuidar da casa, é primordial investir nas mulheres, já que a recuperação econômica depende da volta delas ao trabalho.

Na Austrália, apesar da "recessão feminina", o país está se preparando para o que a ONG Women's Agenda chamou de "Bloke-covery" (algo como "recuperação para os 'caras'"). A estratégia pretende investir US$ 688 milhões na indústria da construção, criando 140 mil empregos diretos e 1 milhão de indiretos. Embora a Austrália tenha oferecido creche gratuita de abril a julho, assim que a economia começou a dar sinais de recuperação, o benefício foi revogado. Grande parte da sociedade criticou a decisão, alegando que a medida mandaria as mulheres "de volta para a casa", impactaria suas finanças e diminuiria a renda das famílias.

O futuro do setor de cuidados infantis irá determinar o cenário econômico, já que as mulheres dependem dele para retornar ao trabalho. Mais da metade das creches americanas (4,5 milhões) correm o risco de fechar as portas para sempre. Retomar o crescimento econômico irá exigir investimentos em infraestrutura, mas também no setor social, o que permitirá que as mulheres voltem ao mercado, que sejam criadas novas vagas de emprego e que os jovens possam ter oportunidades a longo prazo. De acordo com Armine Yalnizyan, economista e membro da ONG The Future of Workers, "não há recuperação econômica sem a participação feminina e não há participação feminina sem creches".

Concorrência e inovação

O choque do novo coronavírus no sistema capitalista, como é de se esperar, restabeleceu as condições para a concorrência e a inovação no mundo dos negócios. A indisponibilidade de alguns recursos e a disponibilidade de novos artifícios calibraram o ritmo e a dinâmica em que as empresas inovam e estabeleceram novas justificativas para a isso, mas sem receio de demonstrar que tudo continua sendo uma guerra visível ou uma corrida contra o tempo e contra os concorrentes.

Um novo jeito de inovar, novas prioridades

 

 “A guerra contra o inimigo invisível do coronavírus se torna a guerra visível pela liderança mundial da inovação” é o que afirma Sebastián Sztulwark, coordenador da área de pesquisa de Economia do Conhecimento, da Universidad Nacional General Sarmiento. Com exceção dos itens tidos como essenciais, do ponto de vista do consumo, a pandemia se torna sinônimo de retração. Para Sztulwark, essa situação faz emergir uma inquietante pergunta: uma vez superado certo nível mínimo, consumir menos não gera certa satisfação dos consumidores?

O receio de que esta resposta seja “sim”, é, na verdade, o motor que faz a "máquina capitalista da inovação" tentar frear este tipo de reflexão e impulsionar uma nova prática de consumo. Ao que tudo indica, essa nova prática é abastecida por dados que aceleram a melhor compreensão do consumidor e suas novas necessidades.

Desta forma, para competir neste novo mundo, seguirá sendo essencial o investimento em tecnologia intimamente atrelado à construção e manutenção de uma audiência fiel, ou seja, de um público consumidor do qual se tem conhecimento por meio de um relacionamento constante e intenso. Estamos assistindo a transição de um regime de (re)produção de mercadorias padronizadas, fabricadas com tecnologias mecânicas para um regime de inovação permanente conectado ao comportamento do consumidor a partir do desdobramento de novos meios de produção e novas estratégias centrados nos dados e no consumidor.

Em outubro, a Levi's e a Lego se uniram em uma coleção em que as roupas contam com peças de brinquedo, permitindo ao cliente customizar as peças do jeito que quiser. Outra estratégia que teve o consumidor e os dados no centro, foi o investimento e a incorporação do aplicativo Zé Delivery na estratégia da Ambev. O aplicativo permite o consumidor comprar e receber por sistema de delivery bebidas de um número grande de marcas prontas para o consumo. Ao usá-lo de forma estratégica, a Ambev está interessada em entender o perfil e os hábitos de consumo de seus consumidores, papel tradicionalmente ocupado pelos donos dos bares.

Uma nova palavra para as estratégias: antifrágil

 

O conceito, cunhado por Nassim Nicholas Taleb, professor de engenharia de riscos na Universidade de Nova Iorque, basicamente diz do que é ligado à capacidade que algo ou alguém possui de se beneficiar de situações em que existem riscos generalizados, de caos e das variações constantes. 

 

Especialistas e economistas como o brasileiro Richard Rytenband já vinham trabalhando para a difusão deste conceito na  economia e ao que tudo indica, a crise e a volatilidade das estruturas no mundo pandêmico e no mundo pós-pandemia, são propícios para que o conceito ganhe força.

Segundo Taleb, todos os sistemas podem ser categorizados como: robusto, frágil e antifrágil. Coisas frágeis perdem com a volatilidade, coisas robustas resistem, coisas antifrágeis se beneficiam disso. Investimentos robustos, por exemplo, são reconhecidos por resistir a grandes crises e oscilações, enquanto os antifrágeis são direcionados para trazer rentabilidade nos momentos de oscilações, tendo seus picos de alto retorno em meio ao caos. Ou seja, enquanto um persiste diante do caos, o outro o utiliza como arma. Pode-se dizer que a antifragilidade, aplicada à concorrência e aos investimentos, por exemplo, usa princípios aplicados em lutas e esportes como o judô: usar a força do seu concorrente contra ele. Enquanto o contexto caótico destrói outros investidores e empresas, a estratégia antifrágil usa essa mesma força para se beneficiar dele.

 

Dessa forma, consciente ou inconscientemente, o cenário incerto ainda trazido pela Pandemia levará as empresas a criarem estratégias de concorrência antifrágeis.

Digital, essa nova metamorfose é digital

 

Uma das saídas da crise do final dos anos 1970, foram as empresas multinacionais que se espalharam pelo mundo em busca de novos mercados. As chamadas cadeias de valor globais foram tentativas de reduzir custos e puderam se tornar realidade e evoluir de maneira constante graças ao avanço rápido da tecnologia da informação.  Contudo, o planeta cobrou o preço por este desenvolvimento acelerado, os limites ambientais foram e continuam a ser ultrapassados.

No momento atual, a tendência é que o legado da crise para a transformação do capitalismo aconteça no digital. A necessidade de abaixar os custos e aumentar o número de consumidores deve acirrar a competição nos (e pelos) meios digitais, da mesma forma que aumentará a dependência deles por parte das empresas. Segundo o professor Sebastián Sztulwark, a emergência de novos meios de produção e de comunicação digitais, além do fortalecimento da indústria de conteúdos, dão luz a um potencial que já estava presente há décadas, mas dá um salto agora, com o distanciamento social e as restrições para a circulação das mercadorias e dos consumidores pelo espaço físico da cidade. Trata-se de uma aprendizagem social, massiva, compulsiva e generalizada, que coloca em jogo e torna realidade o crescimento exponencial dos modelos de negócios baseados no consumo digital. 

Para os negócios, são previstos desafios ligados ao gerenciamento de riscos e à preocupação com compliance, ao mesmo passo que, para chegar primeiro, terão que acelerar o ritmo de adoção de tecnologias de fronteira como a robótica, a internet das coisas, a inteligência artificial e o blockchain em suas estruturas digitais.

Um novo jeito de inovar, novas prioridad